Não sei como dizer-te que minha voz te procurae a atenção começa a florir, quando sucede a noiteesplêndida e vasta.Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsosse enchem de um brilho preciosoe estremeces como um pensamento chegado. Quando,iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocadopelo pressentir de um tempo distante,e na terra crescida os homens entoam a vindima— eu não sei como dizer-te que cem ideias,dentro de mim, te procuram.Quando as folhas da melancolia arrefecem com astrosao lado do espaçoe o coração é uma semente inventadaem seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,tu arrebatas os caminhos da minha solidãocomo se toda a casa ardesse pousada na noite.— E então não sei o que dizerjunto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.Quando as crianças acordam nas luas espantadasque às vezes se despenham no meio do tempo— não sei como dizer-te que a pureza,dentro de mim, te procura.Durante a primavera inteira aprendoos trevos, a água sobrenatural, o leve e abstractocorrer do espaço —e penso que vou dizer algo cheio de razão,mas quando a sombra cai da curva sôfregados meus lábios, sinto que me faltamum girassol, uma pedra, uma ave — qualquercoisa extraordinária.Porque não sei como dizer-te sem milagresque dentro de mim é o sol, o fruto,a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,o amor,que te procuram.excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961
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